O ciclo virtuoso do empreendedorismo na China

Em um momento em que celebramos o nosso 14º Unicórnio – empresas de tecnologia com valor de mercado de 1 bilhão de dólares – consolidando nossa 3ª posição como país que mais produz unicórnios, devemos olhar para os lados e entender o que faz dos dois primeiros potências tão importantes e, ainda, tão distantes de nossa realidade. 

Importante mencionar que, como tudo na vida, há uma discussão sobre o ponto de corte para que a empresa seja considerada unicórnio, levando-se em conta a abertura de capital. Segundo alguns especialistas, unicórnios seriam apenas aquelas empresas com o valuation de pelo menos 1 bilhão de dólares pré abertura de capital. Se contássemos dessa forma, cairíamos para 7ª ou 8ª posição, com apenas 5 ou 6 empresas. 

Na verdade, para o presente texto, isso pouco importa, já que o que queremos é ver mais e mais empresas crescendo, gerando valor para economia e para a sociedade. O momento em que se tornam bilionárias vale como referência, mas não tanto como fator de desenvolvimento da economia. 

Voltando ao tema do texto, vamos olhar um pouco para a China, que hoje ostenta a segunda posição no mundo em número de startups bilionárias, em qualquer tipo de ranking, só atrás dos EUA, com impressionantes 220 unicórnios. 

O que será que a China faz para conseguir, além de ser um mercado gigantesco com uma população de 1 bilhão e 400 milhões de pessoas, tamanha relevância?

Há quem diga que um país com tamanha dimensão e população, acaba se desenvolvendo por si só. Mas isso não é necessariamente verdade, basta ver a ìndia, que possui uma população imensa, relevância econômica mundial e, também, forte ecossistema de inovação, mas não tem tal destaque.

Na China, o que se vê, principalmente, é que o Estado fomenta a inovação e isso se dá de diversas maneiras. A primeira delas, em uma posição mais política do que econômica: o Estado não barra a inovação, opera um sistema liberal de desenvolvimento tecnológico. Em tese, os modelos de negócio são permitidos até que seja necessária regulação, o que, por si só, ajuda bastante.

O segundo aspecto, ainda quanto ao Estado, é que o Governo Chinês é muito poderoso em termos de capital e, ele mesmo, investe em iniciativas inovadoras, além de possuir diversos Fundos de Investimento Estatais gigantes para investimento em iniciativas empreendedoras, os conhecidos Estate-run Funds, que operam fortunas das empresas estatais – empresa de água, gás, luz, transporte e outras empresas públicas que dão lucro, algo diferente do que acontece aqui no nosso país – e investem em diversos modelos inovadores, seja como formas de trazer inovação para o Estado, seja para aumento do patrimônio dos seus fundos com os lucros nos investimentos, ou ainda como forma de fomento ao desenvolvimento do país. Na verdade, o Estado acaba devolvendo parte do que lucra em suas empresas públicas, na própria geração de riqueza para o país via incentivo ao empreendedorismo. 

Além disso, como o país asiático teve um crescimento absurdo de empresas de tecnologia, essas empresas acabam criando seus fundos para investimento, além de adquirir diversas startups, e, também, formam muitos empreendedores que, saindo com retorno de suas participações, empreendem formando novas empresas. 

É claro que a China, via Estado, incentiva muito a ida de estudantes para as melhores universidades mundiais, especialmente, americanas, mas também tem elevado em muito o nível de suas universidades, produzindo centenas de milhares de engenheiros  prontos para suprir a defasagem de mão de obra qualificada para esse novo mundo.   

Podemos, então, resumir o ciclo virtuoso chinês como uma união de Estado, não só via fomento, mas em investimento direto, uma posição de liberdade de se inovar e empreender, o ambiente propício criado pelas gigantes de tecnologia que acabam devolvendo conhecimento e recursos para o ecossistema, além de um viés forte de incentivo ao estudo e formação acadêmica de seus cidadãos.